quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Tingimento de Peixes Ornamentais...



Olá a todos...

Saiu na última edição da Revista Aqualon um textículo nosso sobre tingimento e mutilação de peixes ornamentais, que deixo aqui para facilitar a visualização por parte de quem, seja por que motivo, não quiser baixar o PDF da revista. Para quem quiser baixar diretamente do site, use este link. =D





Tingimento de Peixes Ornamentais... Isso existe?



É comum entrarmos em lojas e nos depararmos com inúmeras variedades de peixes ornamentais, sendo que a busca por novidades é constante por parte de aquaristas e fornecedores (criadores, distribuidores e lojistas). Isso é algo inerente ao comércio e não poderia ser diferente no caso dos peixes ornamentais. Porém, até que ponto o lucro deve sobrepujar outros valores como ética e respeito à vida? Todo aquarista conhece a busca constante por novas espécies de interesse comercial, bem como novas variedades, naturais ou desenvolvidas em cativeiro, de espécies que já fazem parte do mercado de peixes ornamentais. Mas e quanto à modificação artificial e intencional de peixes, por meio de tingimento, mutilação e maus tratos? É um assunto obscuro, pouco discutido no Brasil, que é objeto do presente artigo.
Gostaria de começar esclarecendo um ponto: Não sou contra as variedades de peixes ornamentais desenvolvidas em cativeiro ou as modificações decorrentes de reprodução seletiva e direcionada, desde que não comprometam a saúde dos animais. Os espécimes albinos, de cor realçada, corpo modificado, nadadeiras longas e outras peculiaridades não são condenáveis, apesar de vários criadores preferirem as formas e cores naturais, do padrão selvagem da espécie, mas isso é outra estória, material para outro artigo específico. A questão tratada neste artigo são as modificações invasivas, intencionais e artificiais descritas a seguir.
Quem imaginaria que aqueles peixinhos chamativos, de colorido forte, incomum, com nomes de forte apelo comercial, passaram por um processo cruel e abusivo, onde grande parte dos exemplares morre no decorrer do procedimento ou logo após o mesmo? Peixes diferentes, com termos tipo “color” ou “eletric” no nome, padrões exóticos de colorido, desenhos... Por que tanto alvoroço? Perguntariam muitos lojistas, criadores e aquaristas. Afinal é só um pouco de tinta e os peixinhos ficaram tão bonitinhos com essa cor nova, alegre! Infelizmente, não há nada de alegre nisso que observamos.
Normalmente são escolhidas as variedades de cor clara, espécimes albinos ou espécies de corpo transparente ou semitransparente para que o pigmento fique mais visível e o colorido mais definido. O exemplo mais clássico é o peixe-vidro, Parambassis ranga, antigamente denominado Chanda ranga, que vemos no Brasil com o nome de “peixe vidro color” e manchas sólidas de cores fluorescentes, como azul, verde, roxo e vermelho, na base das nadadeiras dorsal e/ou anal, muitas vezes com uma cor em cada área. O corpo translúcido dessa espécie a torna um “objeto ideal” para ser “pintado”. O processo tradicional de tingimento de peixes ornamentais se dá através da injeção de corantes no corpo do animal, em diversos locais. Normalmente, são dadas injeções subcutâneas (logo abaixo da pele, entre a mesma e a musculatura) com o pigmento, em vários pontos, até formar o padrão desejado. Em espécies de corpo fusiforme, como os lábeos, ou providos de “couraça”, como as Corydoras albinas, a injeção de corante é feita na base da cauda, próximo à coluna vertebral, de onde o pigmento se espalha para outras partes do corpo. A maioria das informações que temos hoje se refere à injeção de pigmento, havendo métodos mais “modernos”, mais elaborados, que serão discutidos mais à frente.



Intrigados com o aparecimento dos “peixes-vidro pintados” ou “disco fishes” (em alusão às suas cores fluorescentes, parecidas com as luzes utilizadas nas discotecas), nos anos 80, os Drs. Stan McMahon e Peter Burgess conduziram uma investigação e uma pequena pesquisa sobre os mesmos, sua origem e o processo pelo qual adquiriram a coloração estranha. Alguns espécimes de Parambassis ranga tingidos foram anestesiados e observados através de lupa binocular, em laboratório. Foi constatado que a tinta não é aplicada sobre a pele, estando situada debaixo da epiderme. Quando a área colorida era levemente pressionada, podia-se observar a tinta, fluida, se movendo ligeiramente, o que sugeria que a mesma foi injetada em vários pontos para formar o padrão de cor observado. Isso pôde ser confirmado anos depois, quando os autores deste estudo tiveram acesso a fotografias que mostravam o processo de aplicação de tinta através de injeções, individualmente, em cada peixe. O procedimento é realizado em empresas de algumas regiões da Ásia, e o nome “pintados” é uma descrição cruel e enganosa do que ocorre. Em relação ao tamanho dos peixes-vidro, a agulha utilizada teria diâmetro equivalente ao de um lápis caso o processo fosse efetuado em seres humanos. A realização de um procedimento invasivo como esse em animais de tão pequeno porte, em larga escala, causa a mortalidade de grande parte dos peixes injetados, estimada atualmente em cerca de 80% (oitenta por cento).
Os Drs. MacMahon e Burgess realizaram outra pesquisa referente às condições de saúde dos peixes-vidro “pintados”, no sul da Inglaterra, e descobriram que cerca de 40% (quarenta por cento) destes apresentam infestação por Lymphocystis, vírus que se manifesta pelo surgimento de pequenas manchas ou pontos brancos no corpo e nadadeiras dos peixes infestados, enquanto a proporção de ocorrência da doença em espécimes não tingidos era de 10% (dez por cento), na região. Como uma mesma agulha é utilizada para injetar tinta em dezenas, ou mesmo centenas de peixinhos, existe a possibilidade de a transmissão do vírus ser facilitada pelo processo. Outra explicação encontrada por eles é de que o stress inerente ao procedimento, que é realizado sem o uso de anestesia, provoque a queda da imunidade natural dos peixes, tornando-os mais suscetíveis a contrair doenças, em particular a linfocistose.
Dentre as “inovações” nessa área, temos a tatuagem dos peixes, por meio de laser óptico, que tinge a pele e as escamas através da destruição dos pigmentos naturais ou da modificação da coloração local. Essa técnica permite a criação de desenhos mais elaborados, de traço mais definido, possibilitando inclusive a gravação de letras, números e símbolos nos peixes. No exterior, pode-se encontrar animais com flores, ou a frase “eu te amo” (em diversas grafias) tatuada nos flancos, para que os mesmos sejam dados como presentes do dia dos namorados, por exemplo. Há inclusive uma empresa especializada na Ásia, mais precisamente em Hong Kong, que aceita encomendas de frases para serem escritas nos peixes, de acordo com o gosto do comprador. Aparentemente, os animais são anestesiados antes do procedimento, em função do maior custo do processo e do maior valor dos “produtos”, mas isso não muda o fato de que o laser óptico destrói as células epiteliais, nem de que se trata da banalização da vida, pois um ser vivo passa a ser visto como um presente, ou um produto para ser adquirido por pessoas dispostas a “dar algo diferente para alguém especial”. Vale salientar ainda que essa técnica exige que os animais permaneçam fora da água por um longo tempo, infligindo um stress prolongado e desnecessário aos mesmos.
Outra técnica de tingimento citada são os “banhos” seriados. O animal seria mergulhado em uma solução que remove seu muco protetor e em seguida transferido para uma solução concentrada do pigmento que penetraria na pele, brânquias, nadadeiras, e até mesmo nos olhos do peixe. Daí seguiria para uma solução cáustica, que, ao irritar a pele, estimula a rápida produção de muco, preservando o pigmento absorvido. Não há, no entanto, nenhuma evidência sólida que confirme a existência de tal procedimento até o momento.
Têm aparecido nas lojas do Brasil espécimes de tetra-rosa (bem como outras espécies) com desenhos elaborados no corpo, sendo muito freqüentes os peixes com um coração de cada lado, em cores berrantes. De acordo com informações que obtive, os mesmos seriam pintados com marcadores permanentes, em território nacional. Não foi possível confirmar tal informação nem verificar o local exato de deposição da tinta até o presente momento, mas para que fosse possível o uso dos marcadores, os animais teriam que ter seu muco retirado (de forma química ou mecânica) para se fazer os desenhos e teria que se permitir a secagem da tinta antes de devolver os peixes à água. Novamente, um procedimento pouco recomendável e fonte de grande stress.

No ano passado, foi publicado um artigo sobre “cirurgia cosmética” em peixes ornamentais, em uma revista de Singapura chamada Fish Love Magazine. O artigo em questão ensina, passo-a-passo, a remoção cirúrgica da cauda dos peixes e a aplicação de corante nos mesmos, como um meio de “criar diversidade” e “adicionar cor à vida dos peixes”. A amputação da cauda vai de encontro à informação de que as variedades sem cauda (como os papagaios “tail-less”, “v-tail”, “snakeskin” ou “love heart”) seriam frutos de seleção genética, como se acreditava. Ensina-se, ainda, como “transformar” os peixes através da injeção de corantes. A banalização é tamanha que os autores dizem que “comparar as cirurgias dos peixes com as operações plásticas do Michael Jackson é como comparar um pequeno monte ao Himalaia”, e consideram o processo ensinado por eles como algo “criativo”. Sinceramente, depois de ver as fotos detalhadas do corte da cauda de um filhote de flower horn, é difícil até mesmo achar interessante um espécime sem cauda à venda nas lojas. No artigo da Fish Love Magazine não há sequer menção a anestésicos, em nenhuma etapa da “cirurgia cosmética” que é ensinada.
A “nova onda” da modificação de peixes ornamentais é a colocação de piercings nos peixes, na boca, nos opérculos e mesmo no dorso dos animais. Além da agressão à integridade física do animal, a presença de um corpo estranho pode vir a machucar as brânquias, bem como impedir a alimentação ao ferir a boca do peixe. Isso sem falar no aspecto estético duvidoso e na existência de um ferimento permanentemente aberto, porta de entrada para fungos e bactérias, comprometendo a saúde do exemplar. Felizmente, ainda não se tem notícia de tais espécimes no Brasil.

Esse “show de aberrações” ocorre com um único objetivo: o lucro. Tornar os peixes mais atrativos a consumidores em potencial, com o aparecimento de novidades, cores chamativas, desenhos exóticos e até personalizados. Infelizmente, a grande maioria dos compradores (estima-se que este percentual chegue a 97%) sequer imagina o que acontece para que esses “diferenciais” apareçam, nem que somente 20% dos peixes tingidos sobrevivam ao processo e cheguem às lojas. Pior ainda, muitos não sabem que em 100% dos peixes tingidos a tinta é metabolizada e excretada, normalmente levando a uma perda total do pigmento após alguns meses. O desgaste fisiológico envolvido na metabolização da tinta leva a uma diminuição considerável da expectativa de vida dos animais tingidos, apesar de não afetar seu comportamento.
Legalmente, no Brasil, esses procedimentos caracterizam crime, com base na legislação vigente. A Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/ 1998), em seu Artigo 32 (caput e § 1º) prevê detenção de três meses a um ano e multa para quem “praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos”, bem como “realizar experiência dolorosa ou cruel em animal vivo”. Essa Lei é regulamentada pelo Decreto nº 6.514/ 2008, que estabelece para este crime multa de quinhentos a três mil reais por indivíduo, ou seja, cada animal que tenha sido vítima (Artigo 29). O problema é que as sanções previstas só podem ser aplicadas à pessoa que executa o procedimento em si, não sendo extensíveis a quem importa ou comercializa esses animais. O mesmo ocorre em outros países, onde a realização dos procedimentos citados constitui crime, mas a importação e venda dos espécimes mutilados não é considerada ilegal. Esse entrave legal deixa a cargo dos lojistas e consumidores a aceitação ou não de peixes ornamentais tingidos e/ou mutilados.
A revista inglesa Practical Fishkeeping iniciou uma campanha em 1996 contra a venda de peixes tingidos no Reino Unido. Resumidamente, consistia de um manifesto contra a venda desses espécimes, que deveria ser assinado por todos os lojistas. Em 2005, metade dos lojistas do Reino Unido tinha assinado o manifesto. Ainda há muitos que consideram esses peixes como parte importante de suas vendas. Não vejo possibilidades de sucesso de uma campanha como essa, no Brasil, infelizmente. Há, no entanto, uma campanha de divulgação em andamento em fóruns de discussão e sites de aquarismo, na internet, sendo disponibilizadas informações e fotografias de peixes tingidos e mutilados, de modo a mostrar a dura realidade desse procedimento aos aquaristas brasileiros.

Então, o que podemos fazer para evitar que a crueldade continue? Devemos nos recusar a adquirir espécimes tingidos e informar os lojistas acerca do que acontece para que essas “belas cores” surjam. E quanto àquelas lojas que insistem em trazer e expor à venda peixes tingidos, mesmo depois de ter conhecimento de todo o processo? Boicote a loja. Se o lojista realmente não se importa com o sofrimento desses animais, como podemos acreditar que ele se importa com o bem-estar dos outros? Sem demanda, não se justifica a oferta... Não trarão peixes tingidos se não houver quem compre. A informação dos aquaristas, compradores em potencial, acerca do sofrimento infligido aos animais para que eles adquiram as cores chamativas, a divulgação do processo de tingimento e suas conseqüências à vida e à saúde dos animais, pode mostrar às pessoas que não se trata de algo natural ou aceitável, ao contrário do que sugerem os nomes pelos quais esses animais são ofertados em listas e em lojas. Afinal, não há nada de colorido nisso tudo.

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2 comentários:

Saudanha disse...

Pessoas desse tipo que praticam essas crueldades são todos uns FDP... deveriamos fazer as mesmas coisas com essas pessoas só para eles ver o quanto é dolorido levando até a morte dos mesmos. Quando presenciarmos atos desse tipo devemos denunciar pois é crime.

Downloads.com disse...

Alem de ficar muito tosco esse peixe com coracao e etc
E uma crueldade sem limites, pena que no brasil um cara assim nao vai preso